NARRAÇÃO

sábado, 6 de setembro de 2025

62 - A VERDADE SOBRE A CONCHA DE PRATA

 Provérbio: “O olho que desconfia vê até no escuro.” 

 

Na aldeia de Kissala, um homem chamado Kiala vivia sozinho há um mês. Sua esposa tinha viajado a trabalho para a cidade grande, e ele, para não se sentir só, convidou a sogra para jantar em sua casa.

Naquela noite, enquanto comiam funge com molho de peixe, a velha Makiesse, sua sogra, não pôde deixar de reparar na beleza da jovem criada que morava na casa. Pele lisa como marfim, corpo firme como tronco de mulemba e um andar que lembrava dança de quem sabe o próprio valor. Makiesse, como boa mulher de aldeia, observava em silêncio, mas o pensamento corria mais rápido que os passos de uma gazela.

Percebendo o olhar dela, Kiala, meio nervoso, disse:

— Mãe, sei o que a senhora está pensando, mas garanto: a relação com a criada é apenas de trabalho.

Makiesse nada respondeu, apenas sorriu daquele jeito que mistura sabedoria e suspeita.

Dias depois, a criada aproximou-se aflita e disse:

— Patrão, desde o jantar com sua sogra, sumiu a concha de prata que usávamos para servir a sopa. O senhor não acha que foi ela que levou?

Kiala abanou a cabeça.

— Não acredito nisso, mas para evitar confusão, vou perguntar. Disse ele.

Mandou então uma mensagem:

“Querida mãe, não estou dizendo que a senhora pegou a concha de sopa, nem estou dizendo que não pegou. Mas o facto é que ela desapareceu desde o jantar.”

A resposta veio no mesmo dia, carregada de veneno doce:

“Querido genro, não estou dizendo que você dorme com a criada, nem estou dizendo que você não dorme. Mas o facto é que, se ela estivesse dormindo na própria cama, já teria achado a concha que escondi debaixo da almofada dela. Com carinho, sua sogra.”

Kiala ficou sem voz. Descobriu, naquele instante, que os olhos da sogra viam mais fundo do que ele imaginava, e que a desconfiança, quando bem plantada, é como tambor que ressoa em toda a aldeia.

 

MORAL DA HISTÓRIA:

Na cultura africana diz-se que “quem esconde panela de barro conhece o fogo que a pode quebrar.” Assim também é a vida: a desconfiança revela segredos que o silêncio tenta ocultar.

O conto ensina que nenhuma mentira se deita tranquila — mais cedo ou mais tarde, o travesseiro a denuncia.

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