Provérbio: “O olho que desconfia vê até no escuro.”
Na aldeia de Kissala, um homem chamado Kiala vivia sozinho há um mês. Sua esposa tinha viajado a trabalho para a cidade grande, e ele, para não se sentir só, convidou a sogra para jantar em sua casa.
Naquela noite, enquanto comiam funge com molho de peixe, a velha Makiesse, sua sogra, não pôde deixar de reparar na beleza da jovem criada que morava na casa. Pele lisa como marfim, corpo firme como tronco de mulemba e um andar que lembrava dança de quem sabe o próprio valor. Makiesse, como boa mulher de aldeia, observava em silêncio, mas o pensamento corria mais rápido que os passos de uma gazela.
Percebendo o olhar dela, Kiala, meio nervoso, disse:
— Mãe, sei o que a senhora está pensando, mas garanto: a relação com a criada é apenas de trabalho.
Makiesse nada respondeu, apenas sorriu daquele jeito que mistura sabedoria e suspeita.
Dias depois, a criada aproximou-se aflita e disse:
— Patrão, desde o jantar com sua sogra, sumiu a concha de prata que usávamos para servir a sopa. O senhor não acha que foi ela que levou?
Kiala abanou a cabeça.
— Não acredito nisso, mas para evitar confusão, vou perguntar. Disse ele.
Mandou então uma mensagem:
“Querida mãe, não estou dizendo que a senhora pegou a concha de sopa, nem estou dizendo que não pegou. Mas o facto é que ela desapareceu desde o jantar.”
A resposta veio no mesmo dia, carregada de veneno doce:
“Querido genro, não estou dizendo que você dorme com a criada, nem estou dizendo que você não dorme. Mas o facto é que, se ela estivesse dormindo na própria cama, já teria achado a concha que escondi debaixo da almofada dela. Com carinho, sua sogra.”
Kiala ficou sem voz. Descobriu, naquele instante, que os olhos da sogra viam mais fundo do que ele imaginava, e que a desconfiança, quando bem plantada, é como tambor que ressoa em toda a aldeia.
MORAL DA HISTÓRIA:
Na cultura africana diz-se que “quem esconde panela de barro conhece o fogo que a pode quebrar.” Assim também é a vida: a desconfiança revela segredos que o silêncio tenta ocultar.
O conto ensina que nenhuma mentira se deita tranquila — mais cedo ou mais tarde, o travesseiro a denuncia.
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