Provérbio: “Quem quer tudo para si, acaba sozinho com nada.”
Numa savana
extensa, onde o capim alto dançava com o vento e os baobás pareciam guardiões
do tempo, vivia a hiena Kandimba. Era conhecida por sua astúcia, mas
sobretudo por sua ganância. Nunca se contentava com o que tinha.
Se encontrava
ossos, queria a carne. Se ganhava carne, queria o boi inteiro. Se recebia
parte, desejava o todo.
Os outros animais já a conheciam:
— A hiena nunca se sacia — dizia o chacal Lutonda.
— Partilhar com ela é o mesmo que perder tudo — resmungava o javali N’Golo.
Mas, numa
época de seca, em que até os rios secaram e as árvores se despiram de folhas,
os animais decidiram unir-se para caçar juntos.
Foi então que
o grupo conseguiu derrubar uma zebra robusta. O esforço foi de todos: o leão Nguxi
derrubou, o búfalo Saka ajudou a cercar, e até o macaco Kiluange
gritou de cima das árvores para confundir a presa.
No final,
reuniram-se em círculo para partilhar a carne.
O leão, como líder, falou:
— Cada um terá sua parte, porque juntos caçamos. Assim, ninguém passará fome.
Todos
assentiram, menos Kandimba. Seus olhos brilharam de avidez, fixos na zebra
inteira.
Quando chegou
a sua vez, Kandimba começou a rir de maneira estranha:
— Hehehehe! Companheiros, vocês cansaram-se muito. E eu, para não vos
incomodar, sacrifico-me: levo a zebra inteira e assim vocês descansam.
O leão rugiu:
— A zebra não é tua! Foi esforço de todos!
Mas a hiena
fingiu não ouvir. Num salto rápido, agarrou o maior pedaço e saiu correndo para
a mata.
Os animais
olharam-se, indignados. Mas estavam exaustos e deixaram-na ir.
Kandimba
arrastou a carne até uma caverna solitária. Lá dentro, começou a devorar, rindo
alto:
— Agora tudo é meu! Hehehehe!
Mas havia um
problema: tanta carne não cabia em seu estômago. Ela comeu, comeu, até que já
não conseguia mover-se. Seus olhos ardiam de sono, mas o medo de perder o que
sobrava fez com que não dormisse.
Enquanto isso,
as moscas começaram a pousar, o cheiro espalhou-se, e em pouco tempo, abutres
rodeavam a entrada.
Na madrugada
seguinte, apareceu um leopardo faminto. Seguindo o cheiro, invadiu a caverna.
Kandimba tentou proteger sua pilha, mas estava tão pesada e enfraquecida que
mal se levantava.
O leopardo
atacou, levou grande parte da zebra e deixou a hiena ferida e sem forças.
Dias depois,
Kandimba vagava pela savana, magra, arranhada e sem carne alguma. Passou pelo
grupo de animais, que já partilhava outra pequena caça.
Quando tentou aproximar-se, o búfalo levantou-se
e disse:
— Aqui não há lugar para quem não sabe dividir.
E todos
viraram-lhe as costas.
Kandimba
sentiu então o peso maior: não o da fome, mas o da solidão.
Deitada à sombra de uma árvore seca, falou
consigo mesma:
— Se tivesse aceitado a minha parte, estaria alimentada, em paz e com amigos.
Quis tudo, e fiquei sem nada.
O vento soprou
entre os capins, como se confirmasse a lição.
A hiena
aprendeu tarde, mas aprendeu: a ganância nunca enche o estômago, apenas
esvazia o coração.
MORAL DA HISTÓRIA
Este conto
reflete uma verdade profunda sobre a vida humana.
- Na família: irmãos que não sabem partilhar afeto ou bens acabam afastando-se uns
dos outros.
- Na comunidade: líderes que acumulam riquezas sem pensar no povo criam revolta e
perdem respeito.
- No trabalho: o colega que tenta sempre puxar o mérito para si acaba isolado, sem
confiança da equipa.
- Na vida pessoal: a pessoa que pensa apenas em si mesma descobre cedo ou tarde que
ninguém deseja estar ao seu lado.
A ganância dá
uma falsa sensação de vitória, mas traz um castigo inevitável: a solidão.
Porque a verdadeira abundância nasce da partilha.
Assim como os
animais da savana, a sociedade só floresce quando cada um recebe a sua parte
justa. A lição é clara: dividir não é perder; é multiplicar relações,
confiança e dignidade.
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