NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

24 - A HIENA E A PARTILHA

 

Provérbio: “Quem quer tudo para si, acaba sozinho com nada.”

 

Numa savana extensa, onde o capim alto dançava com o vento e os baobás pareciam guardiões do tempo, vivia a hiena Kandimba. Era conhecida por sua astúcia, mas sobretudo por sua ganância. Nunca se contentava com o que tinha.

Se encontrava ossos, queria a carne. Se ganhava carne, queria o boi inteiro. Se recebia parte, desejava o todo.

Os outros animais já a conheciam:
— A hiena nunca se sacia — dizia o chacal Lutonda.
— Partilhar com ela é o mesmo que perder tudo — resmungava o javali N’Golo.

Mas, numa época de seca, em que até os rios secaram e as árvores se despiram de folhas, os animais decidiram unir-se para caçar juntos.

Foi então que o grupo conseguiu derrubar uma zebra robusta. O esforço foi de todos: o leão Nguxi derrubou, o búfalo Saka ajudou a cercar, e até o macaco Kiluange gritou de cima das árvores para confundir a presa.

No final, reuniram-se em círculo para partilhar a carne.

O leão, como líder, falou:
— Cada um terá sua parte, porque juntos caçamos. Assim, ninguém passará fome.

Todos assentiram, menos Kandimba. Seus olhos brilharam de avidez, fixos na zebra inteira.

Quando chegou a sua vez, Kandimba começou a rir de maneira estranha:
— Hehehehe! Companheiros, vocês cansaram-se muito. E eu, para não vos incomodar, sacrifico-me: levo a zebra inteira e assim vocês descansam.

O leão rugiu:
— A zebra não é tua! Foi esforço de todos!

Mas a hiena fingiu não ouvir. Num salto rápido, agarrou o maior pedaço e saiu correndo para a mata.

Os animais olharam-se, indignados. Mas estavam exaustos e deixaram-na ir.

Kandimba arrastou a carne até uma caverna solitária. Lá dentro, começou a devorar, rindo alto:
— Agora tudo é meu! Hehehehe!

Mas havia um problema: tanta carne não cabia em seu estômago. Ela comeu, comeu, até que já não conseguia mover-se. Seus olhos ardiam de sono, mas o medo de perder o que sobrava fez com que não dormisse.

Enquanto isso, as moscas começaram a pousar, o cheiro espalhou-se, e em pouco tempo, abutres rodeavam a entrada.

Na madrugada seguinte, apareceu um leopardo faminto. Seguindo o cheiro, invadiu a caverna. Kandimba tentou proteger sua pilha, mas estava tão pesada e enfraquecida que mal se levantava.

O leopardo atacou, levou grande parte da zebra e deixou a hiena ferida e sem forças.

Dias depois, Kandimba vagava pela savana, magra, arranhada e sem carne alguma. Passou pelo grupo de animais, que já partilhava outra pequena caça.

Quando tentou aproximar-se, o búfalo levantou-se e disse:
— Aqui não há lugar para quem não sabe dividir.

E todos viraram-lhe as costas.

Kandimba sentiu então o peso maior: não o da fome, mas o da solidão.

Deitada à sombra de uma árvore seca, falou consigo mesma:
— Se tivesse aceitado a minha parte, estaria alimentada, em paz e com amigos. Quis tudo, e fiquei sem nada.

O vento soprou entre os capins, como se confirmasse a lição.

A hiena aprendeu tarde, mas aprendeu: a ganância nunca enche o estômago, apenas esvazia o coração.

 

MORAL DA HISTÓRIA

Este conto reflete uma verdade profunda sobre a vida humana.

  • Na família: irmãos que não sabem partilhar afeto ou bens acabam afastando-se uns dos outros.
  • Na comunidade: líderes que acumulam riquezas sem pensar no povo criam revolta e perdem respeito.
  • No trabalho: o colega que tenta sempre puxar o mérito para si acaba isolado, sem confiança da equipa.
  • Na vida pessoal: a pessoa que pensa apenas em si mesma descobre cedo ou tarde que ninguém deseja estar ao seu lado.

A ganância dá uma falsa sensação de vitória, mas traz um castigo inevitável: a solidão. Porque a verdadeira abundância nasce da partilha.

Assim como os animais da savana, a sociedade só floresce quando cada um recebe a sua parte justa. A lição é clara: dividir não é perder; é multiplicar relações, confiança e dignidade.


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