NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

25 - O REI QUE NÃO OUVIA OS ANCIÃOS

 

Provérbio: “O jovem corre veloz, mas o velho conhece o caminho.”


Nas planícies de Nzolo, onde o rio Cazengo serpenteava entre palmeiras e milharais, havia um jovem rei chamado Kafumba. Herdara o trono cedo demais, após a morte inesperada do pai, o sábio rei Lukamba, cujo governo tinha sido marcado por paz e abundância.

Kafumba, embora corajoso, era impetuoso. Gostava de caçadas longas, festas ruidosas e exibia-se em roupas de tecidos bordados que chegavam das caravanas do litoral. Aos olhos da juventude, ele era o rei ideal: belo, valente e generoso nas danças. Mas, aos olhos dos anciãos, havia nele um perigo: a pressa de decidir sem ouvir conselho.

No palácio de barro vermelho, ainda se reunia o Conselho dos Anciãos, homens e mulheres de cabelos brancos, como a respeitada Mãe N’Kuyu, guardiã das tradições. Mas Kafumba, impaciente, achava-os lentos e antiquados.

— A aldeia mudou, o mundo mudou! — dizia. — Para que preciso de velhos que falam como tambores rachados?

Os anciãos escutavam em silêncio, trocando olhares pesados como pedras de rio.

Um dia chegaram mensageiros das terras vizinhas, trazendo a notícia de que o rei Mukwiza planeava atacar Nzolo para conquistar suas terras férteis.

Os anciãos pediram audiência.
— Ó rei — disse o velho Ngumbu, cuja voz parecia um tronco arrastado pela água —, Mukwiza é astuto. Não se vence apenas com lanças. Precisamos de alianças, precisamos de estratégias que a experiência pode oferecer.

Mas Kafumba ergueu a mão, interrompendo:
— Basta! A coragem dos jovens é mais forte que a prudência dos velhos. Prepararemos o exército amanhã mesmo!

E assim foi feito. As guerras vieram. Os tambores soaram. Os guerreiros marcharam. No entanto, sem escutas nem planos, Nzolo sofreu duras derrotas.

Mesmo diante das perdas, Kafumba recusava-se a admitir erro. Dizia aos jovens:
— Não precisamos de conselhos, precisamos de mais força!

As casas queimadas, os campos devastados e o choro das mães enchiam Nzolo. Mas Kafumba, cego pelo orgulho, acreditava que venceria sozinho.

Até que numa noite silenciosa, em meio à fumaça das aldeias queimadas, Mãe N’Kuyu foi até o palácio. Ela entrou descalça, apoiando-se no cajado de madeira esculpida.

— Meu filho — disse suavemente —, o rei que não ouve conselho é como um tambor sem couro: faz barulho, mas não fala.

Kafumba, tomado pela ira, ordenou que ela fosse retirada do palácio.
— Basta de vozes antigas! — bradou. — O futuro é meu!

Mukwiza, o inimigo, avançou sobre Nzolo com suas tropas. Sem estratégia, os guerreiros de Kafumba foram vencidos mais uma vez. O rei teve de fugir às pressas para salvar a própria vida, escondendo-se na mata.

Durante dias, errante e faminto, Kafumba sentiu o peso da derrota. O povo murmurava contra ele, e os jovens que antes o exaltavam agora choravam pela fome e pela perda das colheitas.

Foi então que, ao atravessar um bosque, Kafumba encontrou o velho Ngumbu sentado à sombra de uma árvore.
— Ainda foges, meu rei? — perguntou o ancião, com serenidade.
— Não sou mais rei… — murmurou Kafumba, com lágrimas nos olhos.
— És, sim — respondeu Ngumbu. — Mas és um rei que ainda não aprendeu a ouvir.

Envergonhado, Kafumba voltou à aldeia e chamou de volta os anciãos. Reuniu-os no círculo de pedras sagradas. Ali, diante de todos, curvou-se, gesto raro para um rei.

— Perdoem-me. Pensei que a juventude fosse suficiente, mas percebo que sem vossa sabedoria sou apenas sombra do que deveria ser.

Os anciãos, em silêncio, assentiram. Então Mãe N’Kuyu, a mesma que havia sido expulsa, levantou-se e falou:
— O rio corre porque sabe ouvir as pedras. Tu serás grande se aprenderes a ouvir. Vamos reconstruir Nzolo, mas desta vez juntos.

Com os conselhos, foram feitas novas alianças, tecidas com presentes e palavras de paz. Armadilhas foram preparadas, e mensageiros secretos confundiram os inimigos. Em poucos meses, Mukwiza foi derrotado não pela força, mas pela astúcia e união.

Nzolo voltou a florescer. Kafumba, agora mais humilde, passou a sentar-se sempre entre os anciãos antes de tomar qualquer decisão. Ele aprendeu a dançar nas festas, mas também a escutar nos silêncios.

E dizia a todos os jovens guerreiros:
— A lança perfura rápido, mas a palavra do velho atravessa gerações.

 

MORAL DA HISTÓRIA

Este conto mostra que a juventude sem sabedoria é como fogo sem controle: ilumina, mas pode queimar tudo à volta.

  • Na política: líderes que ignoram a experiência de quem já enfrentou crises repetem erros fatais. O poder sem escuta destrói povos.
  • Na vida pessoal: filhos que desprezam conselhos dos pais e avós acabam muitas vezes em armadilhas que poderiam ser evitadas.
  • No trabalho: jovens profissionais podem ter energia e ideias novas, mas precisam aprender com colegas mais experientes a sustentar projetos no longo prazo.
  • Na comunidade: a tradição não é inimiga da modernidade; é a raiz que dá força à árvore para suportar ventos novos.

Assim, o conto ensina que a verdadeira grandeza de um líder — e de qualquer pessoa — está em equilibrar a ousadia da juventude com a sabedoria da experiência.


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