Provérbio: “O jovem corre veloz, mas o velho conhece o caminho.”
Nas planícies
de Nzolo, onde o rio Cazengo serpenteava entre palmeiras e milharais,
havia um jovem rei chamado Kafumba. Herdara o trono cedo demais, após a
morte inesperada do pai, o sábio rei Lukamba, cujo governo tinha sido
marcado por paz e abundância.
Kafumba,
embora corajoso, era impetuoso. Gostava de caçadas longas, festas ruidosas e
exibia-se em roupas de tecidos bordados que chegavam das caravanas do litoral.
Aos olhos da juventude, ele era o rei ideal: belo, valente e generoso nas
danças. Mas, aos olhos dos anciãos, havia nele um perigo: a pressa de decidir
sem ouvir conselho.
No palácio de
barro vermelho, ainda se reunia o Conselho dos Anciãos, homens e
mulheres de cabelos brancos, como a respeitada Mãe N’Kuyu, guardiã das
tradições. Mas Kafumba, impaciente, achava-os lentos e antiquados.
— A aldeia
mudou, o mundo mudou! — dizia. — Para que preciso de velhos que falam como
tambores rachados?
Os anciãos
escutavam em silêncio, trocando olhares pesados como pedras de rio.
Um dia
chegaram mensageiros das terras vizinhas, trazendo a notícia de que o rei Mukwiza
planeava atacar Nzolo para conquistar suas terras férteis.
Os anciãos pediram audiência.
— Ó rei — disse o velho Ngumbu, cuja voz parecia um tronco arrastado
pela água —, Mukwiza é astuto. Não se vence apenas com lanças. Precisamos de
alianças, precisamos de estratégias que a experiência pode oferecer.
Mas Kafumba ergueu a mão, interrompendo:
— Basta! A coragem dos jovens é mais forte que a prudência dos velhos.
Prepararemos o exército amanhã mesmo!
E assim foi
feito. As guerras vieram. Os tambores soaram. Os guerreiros marcharam. No
entanto, sem escutas nem planos, Nzolo sofreu duras derrotas.
Mesmo diante das perdas, Kafumba recusava-se a
admitir erro. Dizia aos jovens:
— Não precisamos de conselhos, precisamos de mais força!
As casas
queimadas, os campos devastados e o choro das mães enchiam Nzolo. Mas Kafumba,
cego pelo orgulho, acreditava que venceria sozinho.
Até que numa
noite silenciosa, em meio à fumaça das aldeias queimadas, Mãe N’Kuyu foi até o
palácio. Ela entrou descalça, apoiando-se no cajado de madeira esculpida.
— Meu filho —
disse suavemente —, o rei que não ouve conselho é como um tambor sem couro: faz
barulho, mas não fala.
Kafumba,
tomado pela ira, ordenou que ela fosse retirada do palácio.
— Basta de vozes antigas! — bradou. — O futuro é meu!
Mukwiza, o
inimigo, avançou sobre Nzolo com suas tropas. Sem estratégia, os guerreiros de
Kafumba foram vencidos mais uma vez. O rei teve de fugir às pressas para salvar
a própria vida, escondendo-se na mata.
Durante dias,
errante e faminto, Kafumba sentiu o peso da derrota. O povo murmurava contra
ele, e os jovens que antes o exaltavam agora choravam pela fome e pela perda
das colheitas.
Foi então que, ao atravessar um bosque, Kafumba
encontrou o velho Ngumbu sentado à sombra de uma árvore.
— Ainda foges, meu rei? — perguntou o ancião, com serenidade.
— Não sou mais rei… — murmurou Kafumba, com lágrimas nos olhos.
— És, sim — respondeu Ngumbu. — Mas és um rei que ainda não aprendeu a ouvir.
Envergonhado,
Kafumba voltou à aldeia e chamou de volta os anciãos. Reuniu-os no círculo de
pedras sagradas. Ali, diante de todos, curvou-se, gesto raro para um rei.
— Perdoem-me.
Pensei que a juventude fosse suficiente, mas percebo que sem vossa sabedoria
sou apenas sombra do que deveria ser.
Os anciãos, em silêncio, assentiram. Então Mãe
N’Kuyu, a mesma que havia sido expulsa, levantou-se e falou:
— O rio corre porque sabe ouvir as pedras. Tu serás grande se aprenderes a
ouvir. Vamos reconstruir Nzolo, mas desta vez juntos.
Com os
conselhos, foram feitas novas alianças, tecidas com presentes e palavras de
paz. Armadilhas foram preparadas, e mensageiros secretos confundiram os
inimigos. Em poucos meses, Mukwiza foi derrotado não pela força, mas pela
astúcia e união.
Nzolo voltou a
florescer. Kafumba, agora mais humilde, passou a sentar-se sempre entre os
anciãos antes de tomar qualquer decisão. Ele aprendeu a dançar nas festas, mas
também a escutar nos silêncios.
E dizia a todos os jovens guerreiros:
— A lança perfura rápido, mas a palavra do velho atravessa gerações.
MORAL DA
HISTÓRIA
Este conto
mostra que a juventude sem sabedoria é como fogo sem controle: ilumina, mas
pode queimar tudo à volta.
- Na política: líderes que ignoram a experiência de quem já enfrentou crises repetem
erros fatais. O poder sem escuta destrói povos.
- Na vida pessoal: filhos que desprezam conselhos dos pais e avós acabam muitas vezes em
armadilhas que poderiam ser evitadas.
- No trabalho: jovens profissionais podem ter energia e ideias novas, mas precisam
aprender com colegas mais experientes a sustentar projetos no longo prazo.
- Na comunidade: a tradição não é inimiga da modernidade; é a raiz que dá força à
árvore para suportar ventos novos.
Assim, o conto
ensina que a verdadeira grandeza de um líder — e de qualquer pessoa — está em equilibrar
a ousadia da juventude com a sabedoria da experiência.
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