Provérbio: “Até a menor voz pode anunciar o nascer do sol.”
Na aldeia de N’Dala,
os dias começavam sempre com o canto de um pequeno galo chamado Kitembo.
Ele não era grande nem tinha penas brilhantes como outros galos. Seu corpo era
magro, suas asas curtas e o bico, um pouco torto. Muitos riam dele.
— Este galo
não assusta sequer uma lagartixa! — zombava a hiena Soba.
— Nem sequer tem crista de rei! — ria o pavão M’Bunga, abrindo sua cauda
imensa.
Mas todas as manhãs, quando ainda havia estrelas
no céu, Kitembo subia à estaca mais alta do curral e cantava:
— Cucurucuuu! O sol está a caminho!
E a aldeia
despertava.
Um dia, os
animais reuniram-se em conselho. O leão Nguxi, orgulhoso, falou:
— Para que precisamos de um galo tão pequeno para acordar-nos? Eu, o rei da
selva, posso rugir e todos despertarão!
A coruja acrescentou:
— Meus olhos veem na escuridão. Eu poderia anunciar o amanhecer antes dele.
E o macaco riu:
— Qualquer um pode gritar! O galo pensa que é importante, mas é apenas barulho.
Ouvindo tais palavras, Kitembo sentiu-se triste.
Olhou para o céu, para as estrelas que começavam a desvanecer, e pensou:
— Talvez eu não seja necessário…
Na manhã
seguinte, não cantou.
O silêncio
pairou sobre a aldeia. As pessoas dormiram além da hora. Os pastores
esqueceram-se de levar o gado ao campo. Os agricultores perderam a frescura da
madrugada para plantar o milho. Até as crianças chegaram tarde à escola da
aldeia.
Os animais
também se confundiram. A hiena, acreditando que ainda era noite, foi rondar o
curral e quase foi pega pelos cães. O leão rugiu, mas já o sol estava alto — e
ninguém se surpreendeu.
A vida da
aldeia ficou desorganizada.
Naquela tarde,
o velho cabrito Mbanza, que era sábio apesar de frágil, procurou
Kitembo. Encontrou-o escondido atrás de um saco de milho.
— Pequeno
amigo, por que não cantaste hoje? — perguntou.
Com lágrimas nos olhos, Kitembo respondeu:
— Porque todos dizem que sou fraco, feio e inútil. Pensei que ninguém sentiria
minha falta.
Mbanza sorriu com ternura:
— Kitembo, não é o tamanho das asas que anuncia o sol, mas a coragem de usar a
voz. Hoje todos aprenderam a tua importância.
Naquela noite,
a aldeia inteira reuniu-se. O soba humano e até os animais pediram desculpa ao
pequeno galo.
Na manhã seguinte, antes da aurora, Kitembo
respirou fundo, subiu à estaca e cantou mais alto do que nunca:
— Cucurucuuu! A vida recomeça!
As pessoas
despertaram felizes. Os agricultores voltaram ao campo. As crianças sorriram a
caminho da escola. E os animais, até o leão, curvaram-se em respeito.
Desde então,
nunca mais zombaram do galo. Pelo contrário, passaram a dizer:
— Se Kitembo não cantar, o sol ficará escondido.
Kitembo
continuou pequeno, com bico torto e penas simples. Mas descobriu que a sua
força não estava na aparência, e sim no poder da sua voz.
E assim, o
pequeno galo tornou-se símbolo de esperança.
MORAL DA HISTÓRIA
Este conto lembra-nos que cada pessoa tem um papel único e essencial, mesmo que pareça pequeno.
- Na família, a criança que pergunta
inocentemente pode trazer reflexão aos adultos.
- Na comunidade, a opinião de alguém simples
pode abrir caminhos que os poderosos não veem.
- No trabalho, a ideia de um funcionário
iniciante pode revolucionar uma empresa.
- Na vida pública, muitas mudanças sociais
começaram com vozes solitárias e aparentemente fracas.
Quantas vezes
ignoramos alguém porque não tem títulos, riquezas ou aparência? No entanto, tal
como o galo de Kitembo, muitas vezes é essa “voz pequena” que traz ordem,
coragem e esperança.
A lição é
clara: ninguém é inútil. Cada voz conta. Cada gesto importa.
Devemos aprender a valorizar o contributo de todos — inclusive o nosso. “Não
é o tamanho da voz, mas a coragem de usá-la, que desperta o mundo.”
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