NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

23 - O GALO DE KITEMBO

 

Provérbio: “Até a menor voz pode anunciar o nascer do sol.”


Na aldeia de N’Dala, os dias começavam sempre com o canto de um pequeno galo chamado Kitembo. Ele não era grande nem tinha penas brilhantes como outros galos. Seu corpo era magro, suas asas curtas e o bico, um pouco torto. Muitos riam dele.

— Este galo não assusta sequer uma lagartixa! — zombava a hiena Soba.
— Nem sequer tem crista de rei! — ria o pavão M’Bunga, abrindo sua cauda imensa.

Mas todas as manhãs, quando ainda havia estrelas no céu, Kitembo subia à estaca mais alta do curral e cantava:
Cucurucuuu! O sol está a caminho!

E a aldeia despertava.

Um dia, os animais reuniram-se em conselho. O leão Nguxi, orgulhoso, falou:
— Para que precisamos de um galo tão pequeno para acordar-nos? Eu, o rei da selva, posso rugir e todos despertarão!

A coruja acrescentou:
— Meus olhos veem na escuridão. Eu poderia anunciar o amanhecer antes dele.

E o macaco riu:
— Qualquer um pode gritar! O galo pensa que é importante, mas é apenas barulho.

Ouvindo tais palavras, Kitembo sentiu-se triste. Olhou para o céu, para as estrelas que começavam a desvanecer, e pensou:
— Talvez eu não seja necessário…

Na manhã seguinte, não cantou.

O silêncio pairou sobre a aldeia. As pessoas dormiram além da hora. Os pastores esqueceram-se de levar o gado ao campo. Os agricultores perderam a frescura da madrugada para plantar o milho. Até as crianças chegaram tarde à escola da aldeia.

Os animais também se confundiram. A hiena, acreditando que ainda era noite, foi rondar o curral e quase foi pega pelos cães. O leão rugiu, mas já o sol estava alto — e ninguém se surpreendeu.

A vida da aldeia ficou desorganizada.

Naquela tarde, o velho cabrito Mbanza, que era sábio apesar de frágil, procurou Kitembo. Encontrou-o escondido atrás de um saco de milho.

— Pequeno amigo, por que não cantaste hoje? — perguntou.

Com lágrimas nos olhos, Kitembo respondeu:
— Porque todos dizem que sou fraco, feio e inútil. Pensei que ninguém sentiria minha falta.

Mbanza sorriu com ternura:
— Kitembo, não é o tamanho das asas que anuncia o sol, mas a coragem de usar a voz. Hoje todos aprenderam a tua importância.

Naquela noite, a aldeia inteira reuniu-se. O soba humano e até os animais pediram desculpa ao pequeno galo.

Na manhã seguinte, antes da aurora, Kitembo respirou fundo, subiu à estaca e cantou mais alto do que nunca:
Cucurucuuu! A vida recomeça!

As pessoas despertaram felizes. Os agricultores voltaram ao campo. As crianças sorriram a caminho da escola. E os animais, até o leão, curvaram-se em respeito.

Desde então, nunca mais zombaram do galo. Pelo contrário, passaram a dizer:
— Se Kitembo não cantar, o sol ficará escondido.

Kitembo continuou pequeno, com bico torto e penas simples. Mas descobriu que a sua força não estava na aparência, e sim no poder da sua voz.

E assim, o pequeno galo tornou-se símbolo de esperança.

 

MORAL DA HISTÓRIA

Este conto lembra-nos que cada pessoa tem um papel único e essencial, mesmo que pareça pequeno.

  • Na família, a criança que pergunta inocentemente pode trazer reflexão aos adultos.
  • Na comunidade, a opinião de alguém simples pode abrir caminhos que os poderosos não veem.
  • No trabalho, a ideia de um funcionário iniciante pode revolucionar uma empresa.
  • Na vida pública, muitas mudanças sociais começaram com vozes solitárias e aparentemente fracas.

Quantas vezes ignoramos alguém porque não tem títulos, riquezas ou aparência? No entanto, tal como o galo de Kitembo, muitas vezes é essa “voz pequena” que traz ordem, coragem e esperança.

A lição é clara: ninguém é inútil. Cada voz conta. Cada gesto importa.
Devemos aprender a valorizar o contributo de todos — inclusive o nosso. “Não é o tamanho da voz, mas a coragem de usá-la, que desperta o mundo.”

 


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